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    Crônicas

Por AFO, cartunista

 

O DIA QUE O MIQUICA FOI ASSASSINADO

 

"Um bate-papo na redação do ESTADO DE MINAS com Benjamin Abaliac, um aficionado e um grande campeão do jogo de botão, me fez voltar aos meus tempos de botonista.

Conversamos animadamente sobre como o futebol de mesa é praticado hoje e como era no passado, como são feitos os craques de hoje e como eles eram concebidos sem a tecnologia de agora.

Me disse o Benjamin que os jogadores de hoje são feitos de material de primeira, no torno, com angulações variadas, para ampliar o repertório de jogadas e melhor direcionar a bolinha e que são guardados em estojos revestidos internamente de veludo. São filiados à Federação, que faz os regulamentos, promove campeonatos, torneios, jogam em estádios oficiais e tudo. Muito diferente do passado.

Meu time de botão – só tive um e ele existe até hoje – nasceu Vasco em 1950, por influência da Seleção Brasileira, vice-campeã mundial no Maracanã e que era composta por maioria vascaína.

Os craques eram moldados na calçada da minha casa e não havia nenhum tipo de preconceito. Tinha jogador de tudo quanto é jeito: de ioiô, de coco, de tampa de relógio, botão de capa de chuva do pai ... dos mais variados DNA's. Tudo que pudesse impulsionar pra frente a bolinha preta tinha chance.

Os estádios eram os pisos dos alpendres, cuidadosamente encerados, e os jogos eram realizados aqui e ali, dependendo dos convites. Tempos depois criamos os torneios-relâmpagos, disputadíssimos, valendo ao campeão, por exemplo, uma Coca-Cola e uma coxinha.

Tinha de tudo. Até gol de bicicleta, juro, infelizmente sofrido pelo meu Vasco, feito pelo "espírita" Ubaldo Miranda, um centroavante metido na pele de um botão branco, de cueca, que, jogando pelo Atlético Mineiro, dirigido pelo meu irmão Paulinho, sempre infernizava minha defesa formada por dois "guarda-roupas" de baquelite e mantinha sempre alerta meu goleirão Barbosa – uma caixa de fósforos "Pinheiro", cheia de chumbo, revestida de papel branco, faixa preta transversal e escudo do Vasco no peito. Um autêntico paredão.

Infelizmente, o atrevido Ubaldo, apelidado Miquica, teve um fim trágico. Numa das finais de um destes torneios, valendo como prêmio um Guarapan e dois pastéis, jogavam Vasco e Atlético. Jogo duro. Empate no tempo normal, empate na prorrogação. Disputa de pênaltis. Cinco a quatro para o Vasco, Ubaldo é posicionado para a quinta cobrança. Tensão. Impulsionado pela "apertadeira" de Paulinho, Ubaldo joga a bolinha preta pra fora, longe da trave confeccionada com meia caixa de sapato e dá a vitória ao meu Vasco. Fim de torneio. Daí para a inimaginável tragédia foi um instante.

Apesar de idolatrar o Miquica, meu irmão, apaixonado e inconformado, não pensou nem meia vez. Com uma certeira martelada, dividiu o Miquica em dezenove pedacinhos – contados de uma só vez, sem a necessidade de recontagem bem ao gosto dos americanos. Dizem que tem botão em estado de choque até hoje.

Algum tempo depois, barriga cheia, surpreendo meu irmão catando os pedacinhos do Ubaldo e colocando-os, carinhosamente, numa caixinha de fósforos para ser enterrado à sombra de uma das roseiras do nosso jardim. Durante a cerimônia fúnebre, uma lágrima preta-e-branca escorre pela face do meu arrependido irmão.

 

 

 

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