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O Tostão me perguntou meses atrás, aqui mesmo em Paris, se o
futebol do Denilson lembrava o Canhoteiro (ponta-esquerda do São
Paulo que só eu vi jogar, na década de 50). Vinda de quem vinha,
aquela pergunta me paralisou. Fiquei postado na praça, sem
raciocínio, olhando para o Tostão. Se bem que, quando topamos um
craque de bola no meio da rua, vestido à paisana, andando como a
gente anda, falando coma a gente fala, nós, amadores sempre nos
atrapalhamos. Viramos idiotas. Certa vez fui apresentado a um
antigo centromédio do Santos, o Formiga. Depois de um breve
diálogo, o assunto esgotado, sem saber por que continuei a
encará-lo. O silêncio se prolongava, incômodo, e ainda
encasquetei de colocar a mão no ombro do Formiga. Com o polegar,
comecei a pressionar de leve a sua clavícula, e me lembro que
ele ficou um pouco vermelho. Então me dei conta de que, pela
primeira vez na vida, conversava pessoalmente com um botão.
Formiga tinha sido um dos meus melhores botões, apesar de meio
oval, um botão de galalite, vermelho.
Na minha mesa, Tostão não chegou a ser botão. Eu já era bem
crescido quando ele apareceu, e fica um pouco ridículo fazer
botão de um jogador mais novo que você. Botões, para a garotada
daquele tempo, eram venerados como ícones, beijados, polidos com
flanela, concentrados em caixas de charuto e inegociáveis. Pois
bem, vi o Tostão deslizar nos gramados e, sem querer
desmerecê-lo, era mesmo um homem com braços e pernas. Nem por
isso há de nascer um centroavante que se lhe compare, com nunca
haverá ponta-esquerda semelhante ao Canhoteiro que só eu vi
jogar. Desde já discordo de que, concordando comigo, sustenta
que o futebol era muito mais bonito no passado. Ao contrário de
nós mortais, que éramos todos mais bonitos no passado, os
craques do passado são ainda melhores hoje. Penduraram as
chuteiras, mas na permanente edição da nossa memória vão
produzindo novos lances memoráveis. Posso vê-los sempre de
uniforme, uniformes diferente uns dos outros, num vestiário com
o teto cheio de chuteiras penduradas. Reúnem-se em torno do
técnico, ouvem a preleção em silêncio, mas não prestam muita
atenção. Dispensam alongamentos, entram em capo e já começam a
jogar. Não dão entrevistas. Não fazem cera, não atrasam a bola,
não cobram lateral, não ficam na barreira, faz cada qual o que
lhe dá na telha. E no entanto exibem um belo conjunto,
mantendo-se invictos há anos e anos, mesmo porque contra eles
não há quem se atreva a jogar. Me vendo de boca aberta, naquela
tarde gelada, o Tostão não fazia idéia dos gols que continua a
marcar dentro da minha cabeça.
“Ele te lembra o Canhoteiro?”, perguntava Tostão, e de cinco em
cinco minutos a pergunta me rebate no ouvido como um gongo,
enquanto vejo o Brasil jogar no State de France, sem Denilson.
Há o grande Rivaldo, seu estilo de ema, há o nosso Ronaldinho,
de quem tudo que se diz não basta, e há um oco. Sim, a ausência
de Denilson agora me lembra exatamente o Canhoteiro, cuja camisa
Zagallo usurpou na Copa de 58, privando o planeta de ver o que
só eu via. Estamos no segundo tempo, Brasil e Escócia um a um, e
já me pergunto se barrando o Denilson, Zagallo não pretende
barrar o Canhoteiro de novo, 40 anos depois. Maldade minha,
claro, pois eis que o Denilson entra em campo, recebe a bola
rente à lateral esquerda, passa zunindo por dois escoceses e
toca para o meio, de calcanhar. A jogada foi bem em frente à
minha cadeira, permitindo-me ver até o branco dos olhos do
Denilson, e não direi o que se passou naquela instante com a
fisionomia dele. Não direi de quem era a figura que vi num
relance, vestindo a camisa 19, porque nem eu próprio acredito
nessas coisas. Mas alguma coisa os escoceses também viram, e ali
se assombraram, e se atarantaram, e perderam a pouca cor que
têm, e bateram cabeças entre si e fizeram um gol contra.
É um garoto, o Denilson, e imagino o que será seu futebol daqui
a mais ou menos 30 anos, quando estarei abarrotado de memórias.
Seu drible na corrida, calculo que possa chega a algo como a
velocidade do TGV Paris-Nantes, embora jamais à do Canhoteiro.
Babando de antemão, me vejo a lembrar o Denílson adiantando a
bola na medida certa, feito isca, para surripiá-la do bico do pé
do beque. Verei o Denilson em nova arrancada, como quem corre
num parque, e a bola que corre serelepe ao seu lado, quase
latindo. Verei o Denilson desviando a bola sem tocá-la, talvez
com um assobio – ele tem boca de assobiador. Verei o molejo
dele, trançando as pernas diante do próximo adversário, e, de
repente hei de ver o drible de corpo. O drible de corpo é quando
o corpo tem presença de espírito.
Se eu fosse menino, faria do Denilson um senhor botão. De tampa
de relógio, acho. |